Apontamentos sobre a conjuntura

Vivemos um período histórico marcado por uma instabilidade profunda, uma policrise que expõe sem disfarces o esgotamento do capitalismo como modelo civilizatório. Não se trata de crises isoladas: o sistema como um todo apodrece diante de nossos olhos. À medida que suas estruturas entram em falência, o capitalismo substitui consensos frágeis por guerra, pilhagem e destruição. O arranjo global liderado pelo Ocidente — Estado-nação, democracia liberal, neoliberalismo — rui aceleradamente.

A explosão financeira de 2008-2009 inaugurou essa etapa, dando origem ao neofascismo, à escalada imperialista e à militarização que moldam o presente. A comparação com 1929 mostrou-se precisa: a resposta belicista, autoritária e neocolonial que emergiu após aquele terremoto financeiro é hoje o eixo da conjuntura mundial.

Poucos episódios simbolizam tão brutalmente esse estágio quanto o genocídio em Gaza, que desde 2023 já arrancou mais de 67 mil vidas, em sua maioria mulheres e crianças. Como afirmou Lula na ONU, ali morreram o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade moral do Ocidente. O recente ataque ao Irã, em junho de 2025, confirma a escalada e o risco real de uma guerra nuclear.

Ucrânia, Ásia Central, Mar do Sul da China: são frentes distintas de uma mesma disputa imperial, impulsionada pelo declínio da hegemonia estadunidense. A América do Sul, por sua vez, está sob crescente pressão, com o Comando Sul intensificando ações sobre a Venezuela. A mudança do nome do “Departamento de Defesa” para “Departamento de Guerra” revela que o imperialismo deixou de se disfarçar: assume seu caráter estrutural e permanente na fase atual do capitalismo financeirizado.

O mundo assiste, simultaneamente, ao salto histórico dos gastos militares: 2,7 trilhões de dólares em 2024 — o maior valor já registrado. EUA, China, Rússia e Alemanha concentram quase 60% desse montante. A militarização é o novo normal.

A volta de Donald Trump aprofunda esse caminho. A extrema direita estadunidense não é apenas um fenômeno cultural; é o braço mais agressivo do capital tentando recuperar hegemonia à força. O trumpismo mistura supremacismo religioso, guerra econômica, protecionismo, fundamentalismo energético e recolonização global. É a mesma lógica que alimenta bolsonarismo e seus derivados.

Na América Latina, a intervenção dos EUA atinge níveis alarmantes. As pressões sobre o STF e setores das Forças Armadas brasileiras, com o objetivo de reabilitar Bolsonaro, são ataques diretos à soberania do Brasil. Ainda assim, o governo Lula tem respondido com firmeza. O discurso histórico na ONU recolocou o país como ator do Sul Global ao denunciar o genocídio em Gaza e as sanções unilaterais. A reunião com Trump serviu para reafirmar: o Brasil negocia, mas não se submete.

Brasil: entre ofensivas da extrema direita e sinais de resistência

Mesmo com o avanço da extrema direita brasileira, o país testemunhou nos últimos meses mobilizações que abriram um novo horizonte de lutas. A resistência contra a PEC da Blindagem, que buscava legalizar a impunidade política e limitar a ação das instituições democráticas, mostrou que há energia social acumulada para enfrentar o projeto autoritário.

A vitória política obtida com a retirada do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil também representou um marco. É uma conquista concreta da classe trabalhadora e um gesto de recomposição social do governo Lula, que buscou aliviar a vida de milhões de famílias em meio ao caos global. Após essa conquista, surge naturalmente um novo patamar de reivindicações, como o debate sobre o fim da escala 6x1, que aparece como uma demanda legítima pela melhoria das condições de trabalho.

Mas o cenário político brasileiro foi profundamente marcado por outro evento: a prisão de Bolsonaro, após uma nova trama golpista que tentou burlar a tornozeleira eletrônica e preparar uma fuga da prisão domiciliar. Esse episódio evidenciou que a extrema direita não está derrotada, mas segue conspirando, testando limites e procurando brechas para desestabilizar o governo e atacar a democracia.

A extrema direita buscou também instrumentalizar a chacina no Rio de Janeiro para desgastar o governo federal, mobilizando seus instrumentos clássicos — medo, desinformação e ódio. O bolsonarismo, mesmo enfraquecido institucionalmente, opera em modo permanente de reorganização e tentativa de recuperar força política.

Venezuela: uma ameaça de intervenção direta do império

Na Venezuela, o imperialismo opera uma intervenção direta. As operações militares no litoral venezuelano, somadas à atualização das bases avançadas em Porto Rico e Trinidad Tobago, mostram a instalação de uma estratégia ofensiva permanente. A nova narrativa construída por Trump — que associa o governo venezuelano ao suposto “Cartel de Los Soles”, rotulado como organização terrorista — é um instrumento perigoso. Sob o pretexto de combater o narco-terrorismo, cria-se uma justificativa para intervenção militar direta.

Essa posição é uma ameaça gravíssima à soberania venezuelana e ao próprio povo do país. É parte de um cerco híbrido que combina sanções, sabotagens, bloqueios econômicos e a fabricação de inimigos para legitimar o colonialismo do século XXI.

Avanços inesperados: Mamdani e a brecha progressista no coração do império

Mesmo no interior do próprio imperialismo, há rachaduras. A vitória de Zohran Mamdani em Nova York, uma das cidades mais importantes do mundo, é um sopro de esperança. É uma vitória democrática e socialista dentro do coração do império — um sinal de que novas possibilidades políticas estão emergindo nos EUA.

Mamdani é a expressão dos povos oprimidos: muçulmanos, latinos, negros e trabalhadores que sustentam Nova York e frequentemente são invisibilizados. Sua vitória ecoa como um alento global e pode inaugurar uma janela progressista dentro dos EUA, mostrando que o socialismo pode ser uma força real até mesmo no centro do capitalismo mundial.

Ecossocialismo, internacionalismo e futuro

A crise climática se agrava de forma dramática. Enquanto o Norte global se veste de verde, na prática busca recolonizar o Sul, disputando lítio, água, terras raras, cobre e biodiversidade. A natureza é transformada em mercado; o planeta, em mercadoria. Só uma transição ecológica anticapitalista — e não corporativa — pode enfrentar essa devastação.

A COP30, realizada no Brasil, trouxe avanços pontuais nas discussões, mas mostrou-se completamente insuficiente diante da magnitude da crise climática. O texto final não incluiu sequer uma linha determinando o fim dos combustíveis fósseis — justamente a medida mais elementar para evitar o colapso climático. Sem enfrentar o poder das petroleiras e do capital fóssil, qualquer acordo climático permanece limitado, e, no limite, meramente decorativo.

Enquanto isso, as migrações, hoje somando 281 milhões de pessoas, revelam o rosto humano dessa catástrofe. A resposta civilizatória só pode ser internacionalista, solidária e antixenófoba, conectando os povos em torno da defesa da vida.

No cenário geopolítico, o fortalecimento da China e a ampliação dos BRICS redesenham as relações globais. Para o Brasil, a relação com o bloco deve ser estratégica, não submissa: é um espaço de disputa e de ampliação de soberania, não um novo eixo de dependência.

Apesar do cenário sombrio, a resistência cresce. O povo palestino resiste; as greves na Europa e as mobilizações antiautoritárias nos EUA se multiplicam; os movimentos populares latino-americanos ganham força. O feminismo internacionalista, protagonizado por mulheres, travestis e pessoas não-binárias, sustenta a luta pela vida. A revolução, se vier, será feminista, ecossocialista e antirracista — ou simplesmente não virá.

Reconstruir o internacionalismo é urgente. Precisamos de uma frente ecossocialista internacional, capaz de enfrentar capitalismo, fascismo, patriarcado, racismo e militarismo — simultaneamente. A crise atual não é destino: é projeto das elites globais. Nossa resposta deve ser coletiva, internacionalista e comprometida com a vida. Colocar o mundo acima do lucro é, é lutar pelo socialismo — e a única alternativa real à barbárie.

 Por: Gabriel Ângelo - Dirigente da Confluência Socialista

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