Unidade não se decreta, se constrói: Por uma alternativa popular em SC

Nós, da Confluência Socialista, partimos do entendimento de que enfrentar o governo de Jorginho Mello e o avanço da extrema direita em Santa Catarina exige mais do que acordos eleitorais: exige construção política real, com enraizamento social e direção programática.

Além disso, é preciso reconhecer que o cenário eleitoral no estado não se resume a uma única expressão da direita. Ao lado de Jorginho Mello, também se movimenta a pré-candidatura de João Rodrigues (PSD), que disputa o mesmo campo político e busca se afirmar como herdeiro do bolsonarismo em Santa Catarina, contando com apoio de setores do PP e do MDB. Esse quadro reforça a necessidade de uma alternativa sólida e coerente por parte do campo democrático.

Tem ganhado corpo, nos bastidores da esquerda catarinense, uma articulação impulsionada por Décio Lima que busca projetar o nome de Gelson Merisio como alternativa ao governo estadual. Esse movimento, que envolve inclusive sua possível migração partidária para o PSB, não pode ser analisado apenas pelo prisma da viabilidade eleitoral imediata, mas sobretudo pelo conteúdo político que carrega.

Para nós, qualquer tentativa de unidade no campo popular só faz sentido se estiver ancorada em um programa construído de forma coletiva. Não se trata apenas de somar forças, mas de definir para onde queremos ir. Isso exige debate aberto, participação das bases e envolvimento direto de movimentos sociais, sindicatos e organizações populares — não apenas de direções partidárias.

A definição de uma candidatura não pode ocorrer como resultado de arranjos restritos a cúpulas. Quando o processo se dá de forma vertical, desconectado das lutas e da base social, o resultado tende a ser frágil, tanto do ponto de vista político quanto eleitoral. A construção precisa vir de baixo para cima, com legitimidade real.

É necessário também olhar com seriedade para a trajetória de Gelson Merisio. Sua atuação histórica está vinculada a setores conservadores e ao chamado “centrão”, tendo inclusive assumido posições alinhadas à direita em momentos importantes. Ainda que tenha apoiado Luiz Inácio Lula da Silva e Décio Lima em 2022, isso não apaga um histórico que levanta dúvidas legítimas sobre qual projeto ele, de fato, representa.

Ao mesmo tempo, é fundamental destacar o papel que o PSOL vem cumprindo na oposição ao governo estadual e às expressões da direita em Santa Catarina. Ao longo do governo de Jorginho Mello, o PSOL tem sido o partido que mais tem tensionado e enfrentado suas políticas, assim como também tem feito oposição firme à gestão de Topázio Neto em Florianópolis.

Foi o PSOL que atuou para barrar a chamada lei anti-cotas proposta pelo governo estadual, defendendo o acesso democrático à educação. Também foi o partido que obteve, na Justiça, a suspensão da nomeação de Filipe Mello para a Casa Civil, denunciando práticas de nepotismo. Além disso, o PSOL acionou a Procuradoria-Geral da República diante de declarações de cunho racista por parte do governador, reafirmando seu compromisso com o combate às opressões.

Essas iniciativas demonstram, na prática, qual tem sido o papel mais consequente na oposição política e institucional no estado.

Seguimos defendendo que o campo democrático dispõe de nomes com maior coerência política e vínculo com as lutas populares. No PSOL, por exemplo, surgem como possibilidades Afrânio Boppré para o governo e Tânia Ramos para o Senado, ambos com trajetórias conectadas às demandas sociais e aos movimentos.

Nossa posição é que a unidade necessária para derrotar a extrema direita deve ser construída com método e conteúdo. Isso significa:

Definir um programa comum a partir da realidade concreta da população;

Garantir a participação ativa da militância e dos movimentos sociais;

Priorizar nomes com identidade política clara com o campo popular;

Estabelecer mecanismos democráticos, como prévias, para a definição das candidaturas.

Propomos a realização de caravanas pelo estado, como instrumento de escuta, debate e elaboração programática coletiva. Esse processo deve servir não apenas para construir uma plataforma política, mas também para fortalecer os vínculos entre partidos, movimentos e a população.

Defendemos que todos aqueles e aquelas que estejam dispostos a contribuir com esse campo sejam incorporados ao processo. No entanto, isso não pode significar abrir mão de princípios ou aceitar imposições. Unidade não se decreta — se constrói, com base em confiança política, coerência e participação.

Somente assim será possível erguer uma alternativa sólida, capaz de dialogar com o povo catarinense e enfrentar, de fato, o projeto da extrema direita no estado.

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