Notas sobre a conjuntura

Lula e Líderes Mundiais - G7. Foto: Spencer Colby (2025)

Atualização sobre a conjuntura internacional, nacional e catarinense, escrita pelo Comitê Regional da Confluência Socialista.

1) A crise da ordem internacional e o retorno das guerras

Vivemos uma transformação profunda e acelerada na situação mundial. A ordem internacional construída nas últimas décadas, baseada na globalização neoliberal e apresentada por seus ideólogos como o “fim da história”, está se desfazendo diante de nossos olhos. O sistema que prometia estabilidade, integração econômica e paz permanente revela agora suas contradições mais violentas.

O que se observa é o retorno aberto da lógica de confrontos entre potências, da militarização da economia e da centralidade da guerra na política internacional. O livre comércio, que durante décadas foi apresentado como princípio organizador do capitalismo global, passa a ser subordinado cada vez mais aos interesses estratégicos e militares dos Estados. Mercadorias, tecnologias e rotas comerciais tornam-se instrumentos de disputa geopolítica.

Nesse cenário, multiplicam-se acontecimentos que indicam o agravamento das tensões globais. Um dos episódios mais graves foi a operação militar realizada pelos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa após uma incursão armada em território venezuelano, seguida da imposição de medidas e restrições ao regime bolivariano. Levado para Nova York e apresentado como prisioneiro de guerra, o episódio abriu um precedente perigoso de intervenção direta de uma potência sobre um governo latino-americano, violando princípios elementares da soberania nacional e do direito internacional.Esse episódio não aparece isolado. Se insere em um contexto mais amplo, de escalada militar internacional. Os EUA intensificam sua presença militar e provocam confrontos diretos e indiretos em diversas regiões.

No Oriente Médio, em continuidade ao massacre genocida cometido pelo estado sionista em Gaza, os Estados Unidos, em ações militares conjuntas e coordenadas com Israel provoca uma guerra contra o Irã, o que aumenta significativamente o risco de um conflito regional de grandes proporções. Ao mesmo tempo, a Europa acelera um amplo processo de rearmamento. A Alemanha retoma a sua condição de grande produtora de armamentos e sua indústria bélica é hoje a maior da Europa. Países europeus ampliam drasticamente seus gastos militares e a França anuncia planos para expandir e modernizar seu arsenal nuclear, recolocando as ogivas atômicas no centro da estratégia militar do continente. A ameaça nuclear — que muitos acreditavam ter sido superada após o fim da Guerra Fria — volta a ocupar o centro das preocupações internacionais.

Paralelamente a essa escalada militar, emergem também disputas territoriais cada vez mais agressivas entre as grandes potências, como na guerra na Ucrânia. Nos Estados Unidos, o governo e setores das elites dominantes defendem abertamente o controle direto da Groenlândia, atualmente vinculada à Dinamarca. A ilha possui enorme valor geopolítico por suas reservas minerais, novas rotas marítimas abertas pelo degelo do Ártico e sua posição estratégica para sistemas militares. O projeto de anexação ou controle direto da Groenlândia revela o grau de competição territorial que começa a marcar a nova etapa da disputa entre potências.

Outro elemento que agrava a tensão internacional é o endurecimento da política dos Estados Unidos contra Cuba. O governo norte-americano intensificou os bloqueios econômicos contra a ilha e setores da política externa estadunidense voltam a levantar ameaças de intervenção direta no país caribenho. O bloqueio econômico, que já dura décadas, provoca graves dificuldades de abastecimento e impacta diretamente as condições de vida da população cubana. Agravada pelo criminoso cerco à importação de petróleo, a atual ofensiva do imperialismo visa a derrubada do governo e a restauração do capitalismo em Cuba.

Diante desse cenário, torna-se fundamental fortalecer a solidariedade internacional ao povo cubano. É importante ampliar campanhas de apoio financeiro e material que ajudem a enfrentar o desabastecimento provocado pelo bloqueio, bem como incentivar a organização de brigadas internacionais de solidariedade que contribuam com o país em diferentes áreas. Defender Cuba significa também defender o princípio da autodeterminação dos povos e o direito de cada nação decidir seu próprio caminho.

Esses acontecimentos não surgem de forma isolada. Eles são expressão de uma crise mais profunda do próprio capitalismo global. A atual fase do sistema é marcada por dificuldades crescentes de reprodução do capital, intensificação das desigualdades sociais, devastação ambiental sem precedentes e uma escalada permanente da competição entre Estados e blocos econômicos.

A destruição ecológica, a financeirização extrema da economia e a concentração de riqueza em níveis inéditos criam uma instabilidade estrutural que atravessa todas as dimensões da vida social. A crise não é apenas econômica: ela também se manifesta no plano político, social e cultural, produzindo um ambiente de insegurança permanente e abrindo espaço para respostas autoritárias.

Nesse contexto, o crescimento da extrema direita e do neofascismo aparece como parte da dinâmica política da crise. Em momentos de crise profunda das estruturas sociais, forças reacionárias podem emergir prometendo restaurar a ordem e salvar a nação. Lideranças autoritárias se apresentam como solução para o caos, mobilizando ressentimentos sociais e canalizando frustrações populares contra minorias, imigrantes e adversários políticos.

Os Estados Unidos desempenham um papel central nesse processo. A crise de hegemonia da principal potência do sistema internacional é um dos motores das transformações em curso. A ascensão econômica e tecnológica da China desafia diretamente a posição dominante norte-americana e intensifica a disputa por mercados, rotas comerciais e áreas de influência.

O resultado é um cenário global cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências. A ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial entra em colapso, e nenhuma nova estabilidade parece capaz de substituí-la no curto prazo.Em outras regiões do mundo, as tensões também se intensificam. A África vive um processo de reorganização política marcado pela contestação da presença militar e econômica de antigas potências coloniais. Na Ásia, a disputa em torno de Taiwan e do Mar do Sul da China torna-se um dos principais focos de tensão entre Estados Unidos e China. No Oriente Médio, guerras prolongadas e intervenções externas mantêm a região em permanente instabilidade.

Nesse cenário, uma verdade histórica se reafirma: quando guerras de proporções mundiais se intensificam, os verdadeiros derrotados são sempre os trabalhadores e os povos pobres.

2) O papel do Brasil na nova conjuntura internacional

Diante desse quadro de instabilidade crescente, o Brasil ocupa uma posição estratégica. Como uma das maiores economias do mundo, com enorme riqueza natural e peso político regional, o país possui condições objetivas para desempenhar um papel relevante na reorganização das relações internacionais.

Ao mesmo tempo, essa posição também expõe o Brasil a pressões crescentes das grandes potências. A disputa global por energia, alimentos, minerais estratégicos e biodiversidade transforma a América Latina em uma região de grande interesse geopolítico.

Historicamente, a diplomacia brasileira buscou defender o multilateralismo, o diálogo entre nações e a solução pacífica de conflitos. Essa tradição pode contribuir para que o país atue como um agente de defesa da paz, da cooperação internacional e do fortalecimento da integração latino-americana e dos espaços de articulação entre países do Sul Global.

No entanto, o papel que o Brasil poderá desempenhar no cenário mundial dependerá diretamente da correlação de forças internas e do resultado das próximas eleições. A extrema direita brasileira, alinhada ideologicamente ao neofascismo internacional, representa um projeto de subordinação completa do país aos interesses do imperialismo e das grandes corporações globais.

Por outro lado, o fortalecimento de um campo democrático e popular pode abrir a possibilidade de afirmar um caminho distinto. Um Brasil comprometido com a redução das desigualdades, com a proteção ambiental, com a integração latino-americana e com a cooperação entre os povos pode desempenhar um papel importante na construção de alternativas ao atual cenário de confrontação global.

A reeleição de Lula em 2026 aparece, nesse contexto, como um passo importante para impedir o retorno da extrema direita ao poder e preservar condições mínimas para um projeto de país mais soberano e democrático. No entanto, diante da profundidade da crise mundial, essa tarefa é apenas um ponto de partida.

3) Do caos capitalista à esperança ecossocialista

A crise atual demonstra os limites históricos do capitalismo. Um sistema que responde às suas próprias contradições com mais exploração, mais autoritarismo e mais guerra não pode oferecer um futuro digno para a humanidade.

Ao mesmo tempo, as contradições do sistema também geram resistências. Em diferentes partes do mundo, trabalhadores, movimentos sociais e organizações populares se levantam contra as desigualdades, contra a destruição ambiental e contra a escalada militarista.

A luta contra a guerra, contra o imperialismo e contra as desigualdades sociais precisam ser articuladas internacionalmente. A construção de um campo socialista internacional, capaz de unir trabalhadores e povos oprimidos em escala global, torna-se cada vez mais necessária.

Diante da barbárie que o capitalismo produz, torna-se urgente afirmar um horizonte político alternativo: um projeto que combine justiça social, democracia real e preservação das condições de vida no planeta.

4) A conjuntura política em Santa Catarina

As transformações da conjuntura mundial e nacional também se refletem na política de Santa Catarina, onde o cenário eleitoral começa a se desenhar em meio a disputas intensas no campo da direita e rearranjos no campo da centro-esquerda.

O governador Jorginho Mello enfrenta turbulências políticas após o rompimento com o MDB. Apesar disso, há um movimento de diversos prefeitos do interior que sinalizam apoio à sua candidatura, buscando consolidar uma base municipalista.

Por outro lado, João Rodrigues mantém sua pré-candidatura ao governo. A disputa ganhou novos contornos após o conflito com Topázio Neto, que declarou apoio a Jorginho Mello e está próximo de uma expulsão. O capítulo ganhou novos desdobramentos com a fala de Bornhausen (PSD), que acusa Jorginho de oferecer R$ 300 milhões em troca da desistência de João Rodrigues.

O MDB sinaliza a possibilidade de candidatura própria após a crise com o governo estadual. No entanto, o presidente estadual da sigla, Carlos Chiodini, afirma que o partido só definirá seu caminho eleitoral no mês de maio.

No campo da centro-esquerda, o PT articula uma chapa que pode ser encabeçada por Gelson Merisio, possivelmente filiado ao PSB. Nesse movimento ocorre também a filiação de Ângela Albino ao PDT, ampliando a articulação dessa frente.

Ao mesmo tempo, o PT concentra esforços na candidatura de Décio Lima ao Senado, o que reduz o espaço político para outras candidaturas no campo da esquerda.

Na disputa pelo Senado, o PL sinaliza as candidaturas de Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni. Nesse movimento, Esperidião Amin teria sido escanteado pelo grupo de Jorginho Mello, abrindo uma crise em torno de sua candidatura.

Diante desse cenário, defendemos a candidatura que melhor representa o nosso campo político. O companheiro Afrânio Boppré tem história e legitimidade para ser o porta-voz da frente democrática em Santa Catarina, junto com a companheira Tânia Ramos na disputa ao Senado.

Um estado marcado pelo peso da extrema direita, o PSOL tem sido a força política que mais a enfrenta de forma consequente, nas ruas, nas lutas sociais e nas disputas institucionais.

Para ir de encontro às aspirações da massa, o PSOL traz o molho:

É tempo de Afrânio e Tânia.

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