O agente laranja em Davos
Chip Somodevilla/Getty Images
Sérgio Moura
“Não haveriam países, hoje, se não houvesse estados unidos” (donald trump, na abertura do fórum de Davos)
A frase pinçada acima, no discurso de trump, foi provavelmente a única verdadeira, entre mentiras, deturpações históricas, fanfarronice, teorias conspiratórias, racismo e ameaças em que declarou guerra (por enquanto econômica) à ordem estabelecida no ocidente pós segunda guerra mundial.
As mudanças no oriente geopolítico alteraram a correlação de forças internacionais. Além da emergência de países com alguma independência na América Latina, Ásia e África e surgimento de mecanismos de integração entre eles.
A estratégia de trump é reconfigurar este quadro, de perda relativa de hegemonia norte americana das últimas três décadas.
O cenário vai além de medidas tarifárias e ameaças militares.
A conquista de territórios, Groenlândia e Canadá à frente, visa estabelecer uma chantagem militar sobre o Leste e mira petróleo e terras raras.
O ataque à Venezuela, o sequestro de seu presidente e a imposição de medidas ao seu governo é usada como exemplar.
O racismo explícito na auto-declaração elogiosa por ser descendente anglo-saxão e germânico e a referência a sua identidade com tantos ali, se soma a crítica à guerra da Ucrânia e Rússia na perspectiva de que tantos, parecidos com os que estavam naquela sala, morreram. Uma referência à identidade de caucasianos da Rússia e Ucrânia com anglo-saxões, arianos e eslavos.
Uma forma também de atrair a Rússia para isolar a China.
O ataque aos somalis, principalmente os de Mineápolis, mas também ao seu país, é dado como um exemplo para apoiar sua milícia anti-imigrantes ice.
Na mesma linha, critica a mudança do perfil étnico dos países europeus, no eufemismo de “mudança de suas populações”, “não reconheço mais a Europa que conheci décadas atrás”. Ou diretamente atacando a imigração e as políticas de inclusão de imigrantes.
Reiterou a identidade com o estado étnico judeu e sua unidade estratégica com ele.
Tudo isso alinhado com a aposta na indústria do carbono, na mudança climática e no aquecimento global como arma geopolítica que elimine ou leve à barbárie as populações vulneráveis e miscigenadas. Genocídio e eugenia para criar um norte global branco desimpedido do gelo no ártico e liberando territórios no Canadá , Alaska, Groenlândia, Sibéria.
Estamos diante de algo como a “teoria do espaço vital”, de hitler (território para arianos), ampliada para os demais povos brancos e um espaço destinado aos judeus.
Como pano de fundo, algo não falado no discurso: a proposta do tal “grupo de paz”, chefiado por trump, que começaria em Gaza, mas que surgiria como uma instância internacional alternativa à ONU.